Quem sou eu

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Maringá, Paraná, Brazil
Às vezes se faz necessário caminharmos contra a corrente para descobrirmos a nós mesmos. O exercício se resume em olhar nos olhos daquele que vem ao nosso encontro!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

COMPANHEIRA DE VIAGEM




Há vinte e quatro anos caminhamos juntos. Os caminhos que percorremos fizeram nossa história, e nós fizemos nossos caminhos. Os construímos passo a passo, enquanto eles nos construíam e nos permitia, respeitando nossa individualidade e nossa unicidade, construirmo-nos mutuamente: eu em ti, e tu em mim. Fomos nos moldando, sendo um, lapidando nossas arestas, nos conhecendo... Sendo! Quantas vezes desfrutamos juntos das alegrias que nossa estrada nos proporcionou, e, quantas vezes, cegos por afetos doentios beiramos o precipício. E caímos! E como a fênix que ressurge das cinzas, recomeçamos... recomeçamos... recomeçamos! Este é um dos pontos fortes da nossa relação: a nossa capacidade de recomeçar.


Costumo dizer que nossa história já estava escrita nas estrelas. Entretanto, sei que são nossas escolhas que definem seu enredo e que há um ‘fio de ouro’ que nos conduz ao ‘como’ dessa experiência que fazemos juntos e que nos permite olhar para uma mesma direção, mesmo que por formas diferentes de ver; e esse é o nosso segredo: deixar o outro ver! Permitir que o outro seja!

Sei que nem sempre é possível aceitar-te como és. Porém, escolho-te assim, todos os dias, pois esforças para aceitar-me como sou, mesmo quando não sou como pretendias que eu fosse. E quantas vezes a fiz chorar por isso! E quantas vezes chorei por fazer-te sofrer! Mas companheiros de viagem são assim mesmo: às vezes nos dizem verdades que preferíamos não ouvir, mas que são necessárias para permanecermos no caminho. E permanecemos! Persistência é outro aspecto que desenvolvemos.

Entretanto, nossa história não é feita só de nós dois. Há tantas pessoas envolvidas que não caberiam nessas linhas. Há pessoas que chegaram. Há pessoas que partiram. Há pessoas que ficaram. Mas todas nos marcaram! Dos entes queridos ao mais distante. Do nobre amigo  àquele que simplesmente passou. Dos filhos que eu trouxe na bagagem aos seus familiares que os receberam como seus; o que lhes sou imensamente grato. Essa é outra característica da nossa viagem: não apagamos as marcas do caminho. As pegadas na areia fazem sentido tanto quanto as freadas no asfalto: elas nos ensinam a viver. Estamos aprendendo!

Não apagar as marcas do caminho, ao contrário do que possa parecer, não é guardá-las na lembrança ou remoê-las em mágoas. É ressignificá-las. Dar a elas o sentido do momento presente e deixar que tomem seu devido lugar. Passado é passado quando o deixamos livre, sem apego, para que, ao seu tempo, tome seu devido espaço em nosso existir. Respeitar o passado do outro é valorizar sua história e confirmar sua essência. Só assim podemos aprender cada lição que a vida nos dá sem termos fantasmas rondando nosso momento presente. Este é outro ponto forte do nosso encontro: deixas-me livre, pois confias no que há entre nós. A liberdade de ser eu mesmo me faz querer voltar para casa todos os dias. Ah! Como é bom ter para onde voltar! Ah! Como é bom saber que estás à minha espera!

Talvez seja reticente dizer-lhe o quanto a amo, pois esforço-me cotidianamente para que dizer não seja preciso. Sei que talvez já estejas cansada de ouvir. Mas algo de mágico acontece quando, de um nada, conversamos horas a fio. Não precisamos motivos, desculpas ou ocasiões especiais. O diálogo é um dom que nasceu e se desenvolveu entre nós. Creio ser este outro ponto forte da nossa relação: fazer-se presente à fala do outro. Fazer-se ouvidos e penetrar na experiência daquele(a) que caminha ao nosso lado, com interesse e intencionalidade. Estar ali faz toda diferença. Escolhemos estar ali. Queremos estar ali. Afinal, esta é a nossa viagem. A santa viagem que decidimos fazer juntos. 

Obrigado, companheira de viagem, por um dia ter cruzado meu caminho e decidido caminhar comigo sem mesmo saber qual seria o destino. Obrigado por fazer-me acreditar que o caminho se faz caminhando... Caminhando! 

Caminhar ao seu lado é a minha escolha, querida companheira de viagem!


ad eternum:

Nivaldo e Inês Mossato
Desde 09/12/1989

domingo, 18 de agosto de 2013

WORKSHOP - ESCOLA E RELAÇÕES HUMANAS: UMA INTERFACE PSICOLÓGICA COM O SABER E A AÇÃO

Mais de oitenta professores da rede estadual de ensino das cidades de Flórida e Lobato-PR participaram do Workshop ‘Escola e Relações Humanas: Uma Interface Psicológica com o Saber e a Ação’.
              Integrando a Semana Pedagógica, o evento ministrado pelo Psicólogo Nivaldo Mossato foi realizado durante todo o dia 26 de julho de 2013 nas dependências do Colégio Estadual Professora Denise Cardoso de Albuquerque, em Flórida-PR, que, atendendo ao convite da professora Rosalina Moreira, teve como objetivo motivar e instrumentalizar os professores, através de vivências relacionais, a buscarem um novo e possível caminho nas relações intra e interpessoais. 
         Para Martin Buber, filósofo judeu (1878 – 1965), o “processo educativo deve privilegiar a conversa e a cooperação entre as pessoas. Saber se relacionar é mais importante do que ser individualmente bem-sucedido. A relação Eu-Tu é um ato essencial do homem, atitude de encontro entre dois parceiros na confirmação mútua (...). Essa união tem como pressuposto o nós e só existe se houver diálogo”.


Esses foram os princípios norteadores do workshop que trouxe, através de dinâmicas de interação e introspecção, a possibilidade de que os professores pudessem vivenciar dois grandes encontros: consigo e com o Outro; como relata a professora Maria Andreia Vicentim Cesnik do Colégio Estadual Professora Denise Cardoso de Albuquerque, de Flórida-PR: “O encontro foi muito significativo, através dele pude enxergar o outro com um novo olhar. Estou colocando em prática tudo o que aprendi. Aprendi a me relacionar melhor com todos inclusive com minha família. Levou-nos a refletir sobre a vida, sobre o novo e sobre as mudanças do mundo e, desta forma, somente ampliando nossa visão é que poderemos nos relacionar melhor com os outros”.

O evento foi desenvolvido de forma a promover a construção de um pensamento que, aos poucos, foi sendo experienciado e compartilhado. Assim, cada participante pode, além da própria vivência, penetrar na experiência do Outro, ampliando sua compreensão sobre o ‘todo’ do universo ali criado, suplantando sua percepção e, dialeticamente, contribuindo para o desenvolvimento dos demais participantes.
A professora Erlines Aparecida Geraldo de Lima avaliou o encontro como uma “reflexão para que pudéssemos mudar a nossa prática pedagógica. O palestrante conseguiu prender a atenção do público e mostrou que nós temos que nos colocar no lugar do outro para entendê-lo. Precisamos nos conhecer melhor para termos um bom relacionamento com as outras pessoas”.
O psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro Rubem Alves descreve o processo de aprendizagem como sendo a “educação dos sentidos”, processo pelo qual “captamos” o mundo exterior e o transformamos no nosso mundo interior. Quando esse processo não se desenvolve adequadamente, criamos no educando barreiras ao aprendizado, bloqueando suas potencialidades e suas possibilidades de aprender. Para o autor, desenvolver os sentidos é o primeiro passo para o bom aprender. Ensinar a ‘ver’ é a tarefa primeira do educador. A criança que não vê, não ouve, não sente, não capta o mundo exterior e não o decodifica.
O workshop levou os professores a compreenderem que a criança não é um ‘ser’ na sala de aula, ela é um ‘ser-no-mundo’. O mundo do educando não se resume às paredes da escola, e, é preciso compreendê-lo nesse ‘todo’ que o envolve e que o  transcende. É tarefa do professor ir além do que vê e percebe em sala de aula. É preciso criar na relação com o aluno um vínculo que o permita ‘alcançar’ as necessidades do educando, sem que se perca a postura de educador; e isso só é possível quando estamos adequadamente preparados para delimitar os espaços Eu-Outro, Eu-Mundo, numa atitude acolhedora do Outro como um todo, não como um fragmento idealizado de realidade.
A Pedagoga Silvia Gomes Davidoski da Escola Estadual Osvaldo Aranha de Lobato-PR assim descreveu o evento: “O Workshop superou todas as minhas expectativas. Aprendi muito sobre relacionamentos e vou levar para a minha vida profissional e particular. Foi um dia agradável de muita interação, reflexão e aprendizagem. (...) os ensinamentos e exemplos de vida despertaram em nós um novo olhar e a determinação em transformar o dia-a-dia em algo melhor”.

A escritora Clarice Lispector, em sua obra “A paixão segundo G.H.”, transcende a percepção do óbvio do cotidiano que nos envolve e nos leva a refletir sobre o ‘não dito’, aquilo que se esconde entre uma palavra e outra, entre um número e outro, entre um fato e outro fato, buscando compreender o ‘entre’, a alma que envolve o encontro de duas ou mais pessoas, o divino mistério que envolve um verdadeiro encontro. 
Assim descreve: “(...) entrei no inexpressivo que sempre foi minha busca cega e secreta (...). Entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois (...). Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo (...).”
Esta é a missão de cada educador: penetrar no ‘entre’, naquele espaço misterioso que transcende a relação professor/aluno e descobrir o ‘novo’, que não é um, nem outro, que não é o professor nem o aluno, mas que os contém em perfeita relação. Um encontro capaz de fazer fluir o amor pelo ‘querer saber’, pela necessidade de aprender que não brota do ‘querer ensinar’, mas do encontro entre pessoas que se confirmam e se respeitam.
Essa missão parece brotar na avaliação da Professora Ailder Sofia Toaldo Cunha de Lobato-PR: “As dinâmicas contribuíram para auxiliar nas decisões enquanto professora, onde tenho que rever minhas atitudes frente ao aluno com dificuldades. Também saber até onde devo ir para não invadir o espaço dos que me rodeiam dentro da escola e no meio em que estou inserida”.
Para Matilde Cesnik do Colégio Estadual Professora Denise Cardoso de Albuquerque o encontro foi marcado por uma profunda “reflexão sobre o nosso trabalho como profissionais da educação. Despertou-nos para procurarmos inovações buscando assim novas metodologias de ensino, contribuindo para o êxito do processo de ensino e aprendizagem”.
O psicólogo humanista Carl Rogers ao descrever o vínculo necessário para que haja a  aceitação do Outro, com toda sua desigualdade e unicidade, revela que: “entrar realmente no mundo do outro, com aceitação, cria um tipo de vínculo muito especial que não se compara a nenhuma outra coisa que eu conheça”. O caminho encontrado para que se construa um vínculo com tamanha magnitude, passa, com toda certeza, pela compreensão de um dos principais dilemas da existência humana: somos únicos, porém, semelhantes.
Compreender e aceitar o Outro em sua unicidade é, portanto, o caminho primeiro para estabelecer um forte vínculo que nos possibilite penetrar sua experiência e alcançá-lo em sua verdadeira necessidade de aprender e se relacionar. O espaço do aprendizado é aquele que, ainda vazio, pode ser preenchido pelo ‘novo’, pelo diferente, de forma criativa e motivante.

Entretanto, o vazio do aprendizado não se refere ao vazio do ‘nada’. Refere-se a um ‘vazio criativo’ onde o novo não só preenche uma lacuna, como também transforma o ‘já dito’ em uma nova experiência repleta de possibilidades e potencialidades. É a redescoberta do sabor do saber. É como se fôssemos um copo com um terço de seu volume abastecido com água. Os outros dois terços do copo representam nosso ‘vazio criativo’. Ao receber um conteúdo novo, como por exemplo, algumas gotas de tintura, não só recebemos o ‘conteúdo tinta’, mas também ressignificamos o conteúdo já existente: agora água colorida. Este novo conteúdo, além de ressignificar o ‘já dito’, abre-nos novas possibilidades de ser e existir no mundo.
Para a professora Andressa Bilha Guari além de motivador o encontro “ fez com que eu tivesse um olhar diferente para os meus alunos. Assim posso conhecê-los melhor e ajudá-los em suas dificuldades. O encontro me ajudou a ter um bom relacionamento com o próximo”.
Um conteúdo novo, quando compartilhado com sabedoria, transforma não só a forma de entender do Outro, como também transcende o seu ‘ser pessoa’ e alcança novas dimensões onde ela está inserida: sua família e seu meio social. É a percepção deste ‘novo todo’ que nos impulsiona a promover mudanças, como relata a professora Ana Gabriela Diniz: “O encontro foi maravilhoso. Através dele, adquiri conhecimentos muito relevantes para a minha prática na sala de aula e a partir desse dia, comecei a trabalhar mais dinâmicas para conhecer melhor os meus alunos. Aprendi também a separar a vida pessoal da profissional”.
Rosana de Paiva Leoni relata que “o encontro foi marcante. Aprendi muito com o meu “eu” e me senti muito amada. Descobri o quanto sou especial para minha família, meus amigos e alunos”.
Para construir um conhecimento e transmiti-lo de forma a ser receptivo pelo educando o educador precisa transcender o conteúdo, fazê-lo novo. A única forma de consegui-lo é fazendo-se presente na relação, é tornando-se ‘parte integrante’ do conteúdo trazendo este para o mundo real, palpável, usual, no aqui-agora do aluno. E o aqui-agora do aluno é o seu momento presente, a sua realidade nua e crua, com todos seus sonhos e pesadelos, com todo seu potencial, e também, com toda sua falta.
Para que isso ocorra faz-se necessário ultrapassar os muros da escola e alcançar as famílias dos alunos, formando parcerias possíveis que possam dar sustentação às reais necessidades emergentes de cada lado da operação escola/família, onde, cada parte, possa comprometer-se com um objetivo comum: dar ao aluno a educação (família) e o conhecimento (escola) necessário para seu desenvolvimento.

Fomentando esses propósitos, pautados na compreensão que somos seres afetivo-relacionais, interdependentes, somos impulsionados a nos desprendermos de uma visão tão somente consumista e materialista para nos embrenharmos num saber holístico, coletivo e dialético, onde o todo é maior que a soma das suas partes, e que, tudo está interligado a tudo e nada acontece por acaso. 
É como comentou a Professora Leny Prado F. Gondolfo “(...) fomos impulsionados a uma proposta de transformação, a um viver em comunhão com Deus e com o próximo, buscando uma vida mais plena e feliz”.
Este é, portanto, o real objetivo deste workshop: levar as pessoas à compreensão de que a vida nada mais é que dois grandes encontros, onde um não ocorre sem que o outro ocorra, dialeticamente – Eu-comigo e Eu-contigo!


Nivaldo Mossato - CRP 08/17541é escritor e psicólogo
clínico, escolar e organizacional. Atende no
CEADI    -   Centro de Estudos e Apoio ao
Desenvolvimento Integrado, situado na Rua
Arthur Thomas, 819, centro - Maringá - PR
Fone (44) 3222-9724 
e-mail: contato@nivaldomossato.com.br
site: www.nivaldomossato.com.br

segunda-feira, 29 de abril de 2013

WORKSHOP - RESILIÊNCIA & AFETIVIDADE - NÓS E LAÇOS QUE (des)CONSTRUIMOS



Este Workshop destina-se aos profissionais e estudantes da área da saúde e educação, ou a pessoas que queiram desenvolver suas habilidades relacionais referentes ao tema:
 
RESILIÊNCIA & AFETIVIDADE:
NÓS E LAÇOS QUE (des)CONSTRUIMOS
 
INSCRIÇÕES:
CEADI - Centro de Estudos e Apoio ao
Desenvolvimento Integrado
Rua Arthur Thomas, 819 - Centro
Fone (44) 3222-9724
Celular (44) 9973-0403
Maringá - Pr
 
Ou pelos e-mails:
 
 
 
 
INSCRIÇÕES ANTECIPADAS:
 
Até o dia 20/05/2013
 
*estudantes R$ 120,00  ou (2x R$ 65,00)
*profissionais R$ 140,00  ou (2x R$ 75,00)
 
Após 21/05/2013
 
*estudantes R$ 150,00 ou (2x R$ 80,00)
*profissionais R$ 170,00 ou (2x R$ 90,00)
 
 
Venha participar conosco!
 
Nivaldo Mossato         -        Gislaine Marquesone
CRP 08/17541                                -                                CRP 08/17486      
 
 

segunda-feira, 18 de março de 2013

SANTIDADE E HUMANIDADE





SANTIDADE E HUMANIDADE

Nivaldo Mossato

 

Muito tenho ouvido, principalmente entre pessoas que buscam a santidade ou, de certa forma, procuram vivenciar mais fortemente uma espiritualidade, que para sermos santos, cotidianamente, precisamos perder nossa humanidade. Segundo este entendimento, o que nos impede de sermos santos é tão somente aquilo que somos no decorrer da nossa experiência no mundo, ou seja, nós mesmos. Despojar do ‘meu humano’ seria, portanto, o caminho à santidade.

A santidade, segundo este conceito, parte do princípio que, ao despojarmos de nossa humanidade, podemos alcançar a pureza necessária para que a santidade se realize em nós. Por mais difícil que seja perdermos nossa ‘humanidade’  – e o é! - ao fazê-lo, estaríamos prontos para receber em nós o Santo, o Divino. A humanidade - nesse caso a nossa vontade e tudo aquilo que acumulamos de estrutura e conhecimento ao longo dos séculos - estaria atrelada ao lado obscuro que cada pessoa traz em si mesmo, portanto, humanidade seria igual a imperfeição, que por sua vez nos levaria ao conceito de não santidade, que nos levaria ao conceito de pecado. Pecado é igual a morte!

Creio haver certa incoerência a respeito deste conceito: ele próprio aniquilaria, a meu ver, toda e qualquer possibilidade de experienciarmos a santidade no aqui-agora, no momento presente da nossa existência. Ficaríamos presos a uma expectativa de que, para alcançarmos uma vida plena no amor necessitaríamos passar pela morte física, considerando que somos seres imperfeitos no amor, seres em construção que, a cada instante se renova através do seu existir, do seu experienciar, do seu ser-no-mundo.

Santidade, segundo Igino Giordani (1) é ‘estar a caminho’. Esse ‘estar a caminho’ nos leva de encontro a nossa humanidade, a nossa experiência cotidiana de existir, de estar em relação. É um constante recomeçar, um cair e levantar-se que, à medida que o experienciamos no amor, nos humanizamos e nos tornamos aptos à santidade. Giordani nos revela em seu livro ‘Diário de Fogo’(1986), que ‘separar-se do mundo não significa separar-se dos homens (...); os homens são imagem de Cristo, teus irmãos resgatados por meio de um único sangue, de tal forma que separar-se deles equivale a renegar o parentesco divino (...)’. E revela ainda em outro escrito que ‘a santidade não é um fenômeno arcaico, reservado aos claustros (...), é o fato central da nossa experiência, do nosso tempo. (...) descobri a santidade no nosso meio’. Creio, portanto, que podemos sim, nos santificar na medida em que nos humanizamos nas relações, pois, estar em profunda relação é fazer brotar o divino no ‘entre’ dessa relação, a santidade no nosso meio.

Humanidade e santidade não são opostos. São interstícios que se complementam, ou seja, que se utilizam do vazio, do espaço deixado entre um e Outro para ser, através do seu existir. São partes de um mesmo organismo, de um mesmo ser-no-mundo. Partículas indivisíveis de um mesmo corpo que, na medida em que se autoregula experimenta em seu existir a plenitude de um ser completo, uma totalidade de corpo-mente-espírito. Alcançamos a santidade na medida que experienciamos, no amor, essa nossa ‘totalidade’, nossa humanidade.

Humanizar-se, torna-se, portanto, um estreito caminho para a santidade. Um caminho que podemos simbolizar por uma imagem que me é bastante significativa a este respeito que é aquela formulada por Chiara Lubich(2) de um sol e seus raios convergentes. O sol simbolizando a Deus-Amor e os raios convergentes os seres humanos. Na medida em que convergimos a Deus, também o fazemos em relação ao Outro que nos é próximo. Na medida em que nos aproximamos, no amor, do Outro, também nos aproximamos de Deus.

Para Brennan Manning(3) a espiritualidade não é um compartimento ou esfera da vida. Antes, é um modo de viver – o processo da vida a partir da perspectiva da fé. A santidade está em descobrir, perseguir e viver o ‘eu’ verdadeiro’. Citando Thomas Merton(4), Manning confirma: ‘(...)o estágio mais elevado de desenvolvimento espiritual consiste em ser ‘comum’, em se tornar um homem pleno, e de tal maneira que poucos seres humanos conseguem ser, tão simples e naturalmente, eles mesmos (...)’.

Alcançar a santidade é, portanto, alcançar o Outro, aquele que caminha ao meu lado. Alcançá-lo, no amor, é, ao mesmo tempo,  humanizá-lo e humanizar-se. É na relação com o Outro, com aquele que, cotidianamente está em contato comigo, que me humanizo. É da qualidade desta relação de amor que nasce a possibilidade (ou não!) de santificação.

Santidade, aqui, não é o que trago dentro de mim, mas o que faço nascer na relação com o Outro. O santo que há em mim só se deixará ver, só fluirá na relação com o Outro. Martin Buber(5) descreve essa relação como ‘EU-TU’, a única forma de fazer surgir, deixar fluir no ‘entre’ da relação o divino, o sagrado. É do verdadeiro encontro EU-TU, EU-OUTRO, que emerge do humano o divino, o sagrado.

Clarice Lispector(6) descreve maravilhosamente este ‘entre’ que há nas relações onde, de forma vital, nos interstícios da matéria se descobre o ‘mistério de fogo’ que nos permite fazer contato com nossa própria identidade e, de posse deste vazio, permitir-se penetrar na mais profunda realidade: Deus! Assim descreve: (...) entrei no inexpressivo que sempre foi minha busca cega e secreta (...). Entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois (...). Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo (...)’.

É no ‘entre’, no encontro de duas matérias que a luz emerge. É mistério e fogo. Um fogo que faz queimar o humano e deixa brotar a graça. Encontro é graça. Sem graça o divino não resplandece. Encontrar-se é retroalimentar-se. É o divino que se faz no humano, no entre que, na graça do encontro faz surgir um terceiro elemento: a santidade. Um terceiro elemento que não é um nem Outro, mas os contém. Mistério e fogo entre dois grãos de areia. A melodia que brota no ‘entre’ de duas notas musicais. Música que não fere os ouvidos, pois, santifica-se ao fazer brotar o divino naqueles que, plenamente humanizados, cônscios de si mesmos, inteiros e integrados, entregam-se ao mistério que surge.

Humanizar-se é, portanto, encontrar-se. Não um encontro de superfície, mas de profundidade. Não somente um encontro de corpos, mas de almas. Almas humanas que, de posse de um si-mesmo, são capazes de experienciar a necessidade do Outro. Almas que se fundem, mas que são capazes de, ao findar o contato profundo com o Outro, restabelecer a própria individualidade; transformada sim pelo encontro, porém, protegida em sua unicidade. É uma constante imersão autorizada na necessidade do Outro, onde, de posse dessa necessidade, fazemos uma profunda cisão em seu ‘EU’ e permitimos que ele a faça em nós, de forma que, ao findar o encontro, retorno à minha realidade mantendo minha unicidade, minha individualidade, transformada pelo encontro. Eu sou eu, o Outro é o Outro, porém, novos, pois, trazemos em nós o fruto da relação, o divino que brotou do ‘entre’, o mistério de fogo que deixou em nós sua melodia.

Santificar-se é experienciar conscientemente o Outro. É penetrar profundamente na experiência daquele que, por amor, me é dado como instrumento, na mesma medida em que me faço instrumento para ele. É na reciprocidade desta relação que me santifico. Estamos irremediavelmente encerrados nela. Relação que exige reciprocidade, sem esta, torna-se monólogo, ou pior: imposição da minha vontade sobre o Outro.

É bíblico o mandamento: ‘amar o próximo como a ti mesmo’(7). O amor aqui não está no ‘próximo’, nem no ‘ti mesmo’. Está no ‘como’, na relação entre um e outro. No terceiro elemento que surge na relação, que não é um, nem outro, mas que os contém. Um amor cego não é amor. Quando não exclui a mim da relação, exclui o Outro. Sem a consciência de quem realmente sou, de como estou em relação, não consigo ter a consciência do Outro. Sem delimitar meu espaço, no momento presente, no agora da relação, não reconheço e nem delimito o espaço do Outro: invado, imponho, desrespeito, anulo, escravizo. Portanto, fico incapacitado para o Amor, para a santidade.

É na presença do divino entre nós que nos santificamos. Não ‘somos santos’. Nos santificamos na presença D’Aquele que é Santo. Não somos Amor. Somos os amados. É tomando posse dessa condição de amados que podemos tomar posse da nossa condição humana e permitir que nossa humanidade, na condição de amados, seja santificada. Nossa santidade é no ‘estar em relação’, é no estar na presença do divino que se manifesta no ‘entre’ da relação. É na realização da promessa de Cristo - ‘onde dois ou mais estiver reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles’( 8) – que nos santificamos. Santidade é um estado de graça e, poder estar na graça já é uma graça.

O testamento de Cristo: ‘que todos sejam um, como Eu e o Pai somos um’(9), é a prova mais contundente que o nosso caminho para a santidade passa, por primeiro(10), na relação humanizadora com o Outro. Para que dois ou mais possa ser um, faz-se necessário ‘deixar de ser, para que o Outro seja’. No entanto, deixar de ser não significa ‘perder a humanidade’, mas deixar morrer a própria vontade para que, de posse da minha totalidade, consciente da minha humanidade, escolher, na liberdade, não ser para que o Outro seja.

Deus, depondo sua própria divindade, se fez homem – Jesus Cristo – e como tal, vivenciou, experienciou nossa humanidade e nela a santificou em profundo relacionamento de amor conosco. Depois, quando crucificado, depôs novamente sua divindade e, perdendo-a, no auge da sua dor – meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?(11) - assumiu nossos pecados, entregando-se à morte, ressuscitando ao terceiro dia. Depôs sua divindade para assumir nossa humanidade para que, através dela nos possibilitasse reatar a aliança com o Pai. Aqui cabe, portanto, uma questão: ‘se Deus, por intermédio de Jesus, escolheu depor-se da própria divindade ao tornar-se homem, para que, através da sua experiência humanizada pudesse abrir-nos caminho para a santidade, mostrando-nos que tal caminho passa por primeiro por Ele mesmo  - ninguém vem ao Pai senão por mim (12) – e pelo amor ao próximo – amai-vos uns aos outros como eu vos amei(13) – sabendo-se que a única forma possível de se amar concretamente é na relação com o Outro, não seria esta a via primeira de santificação?’ Eis aqui, portanto, a essência da santidade que me parece nos ser permitida: experienciar com profundidade nossa humanidade e, cônscios de si mesmo em relação, deixar-se ‘não ser’ para alcançar o Outro na sua mais profunda necessidade, fazendo nascer no entre da relação, o divino ressuscitado.

Humanizar-se é reconhecer-se em relação. É alcançar a consciência emocionada de si mesmo, para que, de posse dela, possa alcançar a consciência emocionada do Outro, aquele que, por amor, me foi dado como instrumento de santidade. Somente a posse deste instrumento é que me permite ‘deixar de ser, para que o Outro seja’. Antes que essa consciência ocorra me é impossível amar em plenitude, despretensiosamente, sem exigir nada em troca, desprovido de algum interesse.

Santo Agostinho, em sua busca pessoal pela santidade, em profundo relacionamento consigo e com aqueles que eram colocados divinamente em seu caminho, ao ser indagado sobre ‘como alcançar a santidade na relação com o Outro, ou seja, em outras palavras, como santificar-se a serviço do Outro’, respondeu: “Ama e faze o que queres”. Eis aqui a liberdade do amor, a possibilidade de sermos nós mesmos em relação: basta-nos estar no Amor! Em outro momento escreveu: ‘(...) pode haver somente dois amores fundamentais: amar a Deus até esquecer de si ou amar-se até esquecer e negar a Deus’. Para que possamos amar a Deus se esquecendo deste ‘si mesmo’ faz-se necessário conhecê-lo (o si-mesmo), tomar posse, ter plena consciência deste ‘eu’. Somente após ter tomado posse, conscientemente, deste meu ‘eu verdadeiro’ é que posso decidir deixá-lo ‘não existir’ para que o ‘Outro exista’; caminho este que nos leva à santidade.

Deixar de ser exige antes de tudo que sejamos! Ninguém deixa de ser aquilo que não é. Se não é, não é. Uma folha de papel só pode deixar de ser uma folha de papel depois de ser uma folha de papel. Enquanto for celulose, não é papel. Não pode deixar de ser o que ainda não é: papel. Eu só posso deixar de ser por opção, por livre escolha, por uma decisão somente minha, particularmente minha. Para isso, precisamos agir como nos ensina Tomás de Kempis(14): ‘Primeiro conserva-te em paz e depois poderás pacificar os outros’.  Preciso ter consciência de quem sou, de como estou em relação, para depois alcançar a consciência do Outro. Não uma consciência cognitiva, mas emocionada, carregada de afeto. De posse da consciência emocionada de mim mesmo, posso sim, por opção e escolha, livremente, perder minha própria vontade em virtude de ser amor para com o Outro.

É como a solidão: se escolhida, é um santo remédio para interiorizar-me em busca da relação íntima com minhas próprias necessidades, com o Outro e com Deus. Estar só consigo mesmo é, muitas vezes, um encontro de plenitude, crescimento e felicidade. Se imposta, a solidão é um terrível sofrimento que nos anula como pessoas, levando-nos ao sentimento de exclusão, à depressão profunda e até mesmo ao suicídio.

A meu ver, santidade se faz na escolha consciente de estar em profunda relação com o Outro, ao ponto de, gerando reciprocidade, fazer nascer no entre da relação o divino que reside em cada um de nós. É este divino, explicitado no entre de uma profunda relação de humanidade que nos habilita à santidade que, por sua vez, nasce da capacidade de cada um de vivenciar, experienciar o paradoxo do amor: deixar morrer meu próprio ‘eu’ para que o Cristo se faça vivo em mim; portanto, santificar-se é deixar de ser – por livre e consciente escolha - para que o Outro seja! Só assim podemos nos apossar do divino, aquele mistério de fogo que deixou em nós sua melodia.

 

(1)      Escritor e político italiano. Co-fundador do Movimento dos Focalares (1894 – 1980).

·          Giordane, Igino. Diário de fogo. São Paulo: Cidade Nova, 1986.

·          Sorgi, Tommaso. Igino Giordane: Sinal dos tempos novos. São Paulo: Cidade Nova, 1994.

(2)      Fundadora do Movimento dos Focolares (1924 – 2008).

·          Lubich, Chiara. Escritos Espirituais. São Paulo: Cidade Nova, 1983.

·          Lubich, Chiara. Meditações. São Paulo: Cidade Nova, 1987.

(3)      Manning, Brennan. O Impostor que vive em mim. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

(4)      Merton, Thomas. The Hidden Ground of Love: letters. Nova York: Farrar, Strauss, Giroux, 1985.

(5)      BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução Newton A. V. Zuben. São Paulo: Centauro, 2001.

(6)      Lispector, Clarice. A paixão segundo GH. Rio de Janeiro:J.Olimpio, 1977.

(7)      Mt 22, 39.

(8)      Mt 18, 20.

(9)      Jo 17,21.

(10)   ‘Por primeiro’, pois, nossa primeira relação de humanização e santidade ocorre com a mãe – ou cuidador - nos primeiros anos de vida.

(11)   Mt. 27,46.

(12)   Jo 14,6.

(13)   Jo 15,12.

(14)   Kempis, Tomás. Imitação de Cristo. São Paulo: Círculo do Livro, 1979. (Escrito por volta de 1420 a 1470).

 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

EDUQUE SEU FILHO



EDUQUE SEU FILHO

                                                                                                           Nivaldo Mossato
                                                                                                 Psicólogo -  CRP - 08/17541

Eduque seu filho

Para que seja um bom filho;

Só assim ele poderá confirmar-lhe

Como um bom pai.

Eduque-o no trabalho,

Dando-lhe pequenos afazeres diários.

A educação pelo trabalho

Dignifica o homem  e

Dá-lhe sentido e significado na vida.

Eduque seu filho pelo brincar;

É na fantasia que a criança aprende a lidar
 
Com as próprias emoções,

Preparando-se para os problemas do mundo adulto.

Eduque seu filho pelos seus sentidos;

É desenvolvendo os sentidos

Que a criança aprende a ver o oculto,

Escutar o que não foi dito,

Sentir o perfume das flores,

A tocar e ser tocada e,

Falar quando necessário.

É pelos sentidos que construímos

Nosso mundo interior,

Identificamos e confirmamos nossa sexualidade

E nos descobrimos como seres humanos.

Eduque seu filho

Impondo limites a si mesmo.

Bons exemplos valem mais que palavras.

Impor limites requer a arte de reconhecer-se limitado.

Só assim a criança criará forças e expectativas

Para superar-se e crescer sadiamente.

Diga não e corrija-o  com imposição e respeito,

Sempre que necessário,

Mas acredite: o sim é a porta do mundo

E  a criança aprende e apreende experienciando-o.

Presenteie seu filho,

Não com coisas e objetos,

Mas com sua presença.

A presença educa a personalidade,

Impõe limites e obediência,

Transmite segurança,

Proporciona o contato,

Porta de entrada do afeto e da confirmação.

Confirme seu filho

Em sua personalidade e em suas potencialidades.

Uma criança confirmada

Torna-se um adulto consciente de si mesmo,

Espontâneo e criativo,

Livre nas suas convicções

E capaz de afirmar-se nas próprias escolhas.

Acredite: um dia esta liberdade o fará voar...

E voar é preciso!

Ame seu filho

E eduque-o pelo afeto.

Somos seres afetivo-relacionais.

O afeto é a chave da sabedoria, que,

Maior que o conhecimento,

Apresenta-nos a nós mesmos e ao mundo,

Abrindo-nos o caminho para o verdadeiro encontro

Conosco, com o Outro e com a felicidade.

Eduque seu filho para o encontro,

Para que descubra que há outros seres no mundo que,

Iguais a ele, merecem seu lugar ao sol

E um pedacinho do céu:

É delimitando o próprio espaço

Que aprendemos a respeitar o espaço alheio.

É promovendo o encontro consigo mesmo,

Que nos habilitamos ao encontro com o Outro,

E descobrimos que, maior que o Eu e que o Outro,

É o ‘Entre’ construído pela reciprocidade,

Capaz de revelar o divino em cada ser humano.
 
Eduque-o, não para ser o que você gostaria que ele fosse.
 
Eduque-o para que ele possa ser ele mesmo,
 
Único caminho para a felicidade!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A RAINHA QUE MATOU A MÃE





Muito me apraz uma recordação que trago da infância, desde os meados de 1969, quando, por ocasião das comemorações do dia das mães, assisti, maravilhado, a encenação da música ‘Mamãe, mamãe, mamãe’, gravada por Agnaldo Timóteo e Ângela Maria. (Abaixo).

Mamãe, mamãe, mamãe
Composição:
(Herivelto Martins/David Nasser/Washington Harline)

Ela é a dona de tudo,
Ela é a rainha do lar,
Ela vale mais para mim,
Que o céu, que a terra, que o mar,
Ela é a palavra mais linda,
Que um dia o poeta escreveu,
Ela é o tesouro que o pobre,
Das mãos do senhor recebeu,
Mamãe, mamãe, mamãe,
Tu és a razão dos meus dias,
Tu és feita de amor e esperança,
Ai, ai, mamãe,
Eu te lembro chinelo na mão,
O avental todo sujo de ovo,
Se eu pudesse,
Eu queria outra vez mamãe,
Começar tudo, tudo de novo...

Lembro-me emocionado. Lágrimas escorrendo pela face, enquanto o coração se fazia pequeno frente a tanta gratidão, amor e benevolência que a cena protagonizava. Não poderia ser diferente: perpetuou-se em mim a imagem da imaculada mãe, continente incansável das augruras da família; confidente dos amores filiais; amiga das horas difíceis; algóz dos sofrimentos; colo caliente das ‘febres inesistentes’ da minha infância.

Guardo ainda, no fundo do peito, a sensação de acolhimento e aceitação, quando, na encenação, a criança se aproximou da mesa de doces onde a mãe confeitava um bolo e, sorrateiramente, colocou o dedinho dentro da massa; o que de imediato despertou a resposta da mãe, que, com olhar terno e sorriso acolhedor, passou-lhe o dedo sujo de massa de bolo na ponta do nariz (cena essa repetida incansávelmente hoje nas propagandas de margarina).

A cena continha em si tamanha plenitude de ‘troca’ entre os atores que a criança em mim ficou tocada com o olhar penetrante e o sorriso avassalador daquela mãe fictícia, porém, real na maioria dos lares que comumente eu frequentava naquela época.

Não me refiro aqui à ‘mãe-avental-sujo-de-ovo’ como aquela que, submissa, arraigava-se sob os tratos machistas, esquentando a barriga no fogão e esfriando no tanque de lavar roupas (como retrata o jargão popular), por pura obrigação ou falta de opções na vida. Refiro-me àquela que, por amor e livre escolha optava por ser mãe, e como tal, assumia seu papel de ‘mãe-rainha-do-lar’ onde se realizava na plenitude da pessoa humana e humanizadora.

Hoje, tentando reviver a cena, ou mesmo a emoção que dela exauria, descubro decepcionado que aquela ‘mãe-com-o-avental-sujo-de-ovo’, já não existe mais! Foi substituida pela mãe-tudo-pronto, pela mãe-tecnológica ou mãe-microondas; ou pior: pela ‘mãe-fast-food’.

Os tempos mudaram, e com ele, nós mudamos! Ou seria o inverso: nós mudamos e transfomamos o mundo a nossa volta? Não! Nem um, nem outro. Nós mudamos o mundo a nossa volta, e este, transformado, nos transforma, num contínuo movimento dialético. Somos seres no mundo, e como tal, o transformamos, criando contínuamente novas necessidades que exigem cada vez mais o ‘aperfeiçoamento’, a transformação de nós mesmos.

Somos seres relacionais que, sem percebermos, estamos nos transformando em seres-tecnológicos-individuais, influenciados pela nova rainha-do-lar: a televisão! Companheira de horas insólitas; mãe-eletrônica-dos-nossos-filhos; indicadora de moda e costumes; banalizadora de padrões culturais; demolidora de tabus; instigadora do sexo; agente de adultificação da criança e da infantilização do adulto; massificadora da violência; instrumento de manobra da consciência humana; usurpadora do primeiro afeto.

Eis a rainha: a televisão aberta do brasil! Instalada em seu trono, no melhor local da casa: na sala de visitas, impedindo o diálogo familiar; no quarto do casal, usurpando atenção e afeto; no quarto dos filhos, deseducando e instigando o individualismo de suas ações e sentimentos.

Eis a rainha-do-lar: venerada em suas 42 polegadas ou mais! Promotora de necessidades inúteis e, como camaleoa, camufladora dos seus verdadeiros interesses: manobrar os fracos sob a tutela econômico-financeira dos fortes, subjugando-os e reduzindo-os a escravos de si mesmos e a consumidores compulsivos e inescrupulosos dos recursos naturais, que já clamam por socorro.

Abram alas para a rainha-do-lar; e chorem pasmos o futuro medíocre dos seus filhos, que, infelizes e atrofiados mental e afetivamente, não terão nem mesmo o que recordar!

domingo, 8 de abril de 2012

SOBRE A VIDA E A MORTE 2



O grande e inevitável encontro da nossa vida é com a morte. Deveríamos tê-lo como meta! Assim, morreríamos melhor; sem medo, sem angústia, em paz e plenitude.


A vida e a morte são duas faces da mesma moeda. Portanto, ambas tem o mesmo valor. Deveríamos, cotidianamente, nos preparar divinamente para este grande encontro. Assim, viveríamos melhor; sem medo, sem angústia, em paz e plenitude.

Viver bem é acolher com plenitude tudo que a vida nos oferece a cada momento. Cada instante é único e traz na sua essência tudo que necessitamos para sermos felizes.

A felicidade não consiste em vivermos um momento eternamente, mas em eternizarmos, em nós mesmos, os momentos felizes que vivenciamos.

Quando compreendemos que ao nascer caminhamos, inevitavelmente, em direção à morte, entendemos e aceitamos a finitude do nosso corpo; isso nos possibilita cuidarmos melhor deste instrumento, desta casa onde habita nosso espírito.

Devemos educar nossos sentidos para a vida, e isso requer enxergarmos o que não vemos; ouvir o próprio silêncio para podermos acolher o silêncio alheio; falar o necessário, pois o desnecessário invade a privacidade do outro; sentir a vida à flor da pele, para podermos saboreá-la em plenitude.

Educar os sentidos em favor da natureza, pois esta está, intrinsecamente em nós, muito mais que imaginamos. Nada é por si mesmo, perdido no espaço e no tempo. Tudo faz sentido, até mesmo a morte, pois, a vida e a morte são eternidades que se completam!

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